Vamos falar sobre DM1 e bomba de insulina?

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Resolvi escrever um post bem completo sobre a bomba de insulina porque tenho recebido muitas perguntas sobre ela. Já aviso que é “textão”, mas garanto que se você ler o texto na íntegra, terá muitas de suas dúvidas esclarecidas.

Em primeiro lugar, quando falamos em bomba de insulina, temos que ter claro que ela é apenas uma ferramenta, apenas uma forma diferente de aplicar insulina. É perfeitamente possível ter um bom controle usando as canetas para aplicação de insulina. Eu tinha. Usava Lantus e NovoRapid em canetas e estava com glicada de 6,2%.

Sempre gosto de reforçar isso e também sempre gosto de dizer que, em regra, se você tem um bom controle usando as canetas, você terá um bom controle com a bomba de insulina.

Como eu falei, eu tinha um bom controle com as canetas, mas optei por migrar para a bomba de insulina em razão da praticidade, da comodidade que ela proporciona. E também porque eu acredito que é o mais parecido, fisiologicamente, com o que o meu pâncreas faria se funcionasse. É o que mais se aproxima ao que o pâncreas de uma pessoa não diabética faz.

Portanto, aí se quebra o primeiro mito: o de que a bomba é indicada apenas para quem não consegue um bom controle. Isso é mito total!

Para usar a bomba, você precisa ter prescrição médica. Nenhuma empresa (no Brasil, são apenas duas: Medtronic e Roche) oferece o teste da bomba se o paciente não tiver prescrição médica. Logo, se você tem interesse em testar a bomba, o primeiro passo é conversar honestamente com o endocrinologista que te acompanha. Converse, questione, veja se a terapia com bomba de insulina é adequada para você. Às vezes, pode não ser adequada naquele momento, você pode precisar ter que fazer ajustes no seu tratamento antes de migrar para a bomba. Analisar tudo isso junto ao seu médico é fundamental, imprescindível. Tendo a prescrição médica, aí você pode contatar as empresas e solicitar o teste.

Outra coisa que é importante destacar é que nem todo endocrinologista entende da terapia com bomba de insulina. Assim como nem todo endocrinologista é especialista em diabetes (endocrinologistas atendem um leque enorme de questões, desde a pessoa que quer emagrecer, questões hormonais, tireóide, entre outros, até diabetes). Portanto, é importante buscar sempre especialistas. Eu tenho a sorte de ter uma endocrinologista que é diabética tipo 1 e usuária de bomba de insulina.

Por que é importante que o médico entenda da terapia de bomba de insulina? Porque é o médico que fará a prescrição das doses de insulina para programação da bomba. Quanto mais entender de como a bomba funciona, melhor. Para a nova bomba de insulina da Medtronic, a 640G, somente médicos certificados pela Medtronic poderão fazer a prescrição.

Agora vamos falar um pouco sobre as insulinas que podem ser utilizadas na bomba. Na bomba, utilizamos somente insulina ultra-rápida. A questão é que, na bomba, a insulina ultra-rápida faz o papel da insulina basal.

Para ficar mais claro, vamos voltar um pouquinho e falar sobre o papel das insulinas. Diabéticos que não usam bomba, usam dois tipos de insulina: uma de longa duração, que chamamos de basal (Lantus, Levemir, Tresiba, Toujeo, NPH) e outra de ação rápida , que chamamos ultra-rápida e que utilizamos para fazer o bolus de refeição e o bolus de correção (NovoRapid, Humalog, Apidra).

O papel da insulina de longa duração é nos manter vivos. É ela que mantém todos os nossos órgãos funcionando, nosso coração batendo, nosso cérebro funcionando, nossos pulmões funcionando e assim por diante. Quando a insulina basal está perfeitamente adequada, temos estabilidade glicêmica ao longo do dia.

O papel da insulina ultra-rápida, utilizada na contagem de carboidratos, é de bolus refeição e de bolus correção. Ou seja, é a dose extra de insulina que precisamos quando vamos comer carboidratos (bolus refeição) e a dose extra de insulina que precisamos quando vamos corrigir uma hiperglicemia para trazer a glicemia de volta à meta (bolus correção).

O pâncreas da pessoa não diabética faz tudo isso sozinho, de forma automática, sem que a pessoa nem saiba o que está acontecendo. Nós, diabéticos tipo 1, como não produzimos insulina porque nossas células beta-pancreáticas foram destruídas pelo nosso sistema imunológico, precisamos aplicar insulina para dar conta de tudo isso.

Voltando, então, a como funciona a dose de insulina basal na bomba… Quando utilizamos insulina basal em canetas (ou seringas), em se tratando das análogas, aplicamos uma dose única ao dia que dura 24 horas no nosso organismo (ou mais, no caso da Tresiba e da Toujeo). Na bomba de insulina, usamos a insulina ultra-rápida para cumprir o papel da insulina basal e, assim, a cada hora, a bomba infunde uma pequena dose de insulina no corpo. Por isso que eu digo que é mais parecido com o que o meu pâncreas faria se funcionasse, pois é exatamente isso que o pâncreas da pessoa não diabética faz: libera gradativamente a insulina para nos manter vivos no nosso organismo ao longo das 24 horas. Outra vantagem da bomba é que ela permite o ajuste dessa dose nas faixas de horários de acordo com as necessidades individuais. Assim, podemos ter uma dose maior de insulina na faixa de horário de atuação dos hormônios responsáveis pelo fenômeno do alvorecer (hormônios que entram em ação para nos despertar e que acarretam elevação da glicemia). E também podemos ajustar facilmente a dose de insulina basal nas ocasiões em que ela costuma se alterar (como quando estamos doentes, com alguma inflamação, com alguma moléstia, durante a TPM, durante a menstruação, em momentos de grande stress, entre outros, conforme a necessidade individual e de acordo com a prescrição médica).

Para exemplificar, vou mostrar a minha programação basal standard: (Lembre que essa programação necessita de prescrição médica de acordo com as necessidades de cada indivíduo.)

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E como funciona o bolus na bomba? Muito fácil! Basta apertar alguns botões. Antigamente, quando eu usava as canetas, eu precisava abrir o estojo onde guardava as canetas, tirar a tampa da caneta, pegar uma agulha nova, tirar o lacre da agulha, conectar a agulha à caneta, selecionar a dose de insulina de acordo com a contagem de carboidratos e o valor da minha glicemia pré-prandial, selecionar o local de aplicação no meu corpo e aplicar. Hoje, eu apenas informo para a bomba quanto está minha glicemia e informo a quantidade de carboidratos que vou comer (eu não uso o sensor próprio da bomba, vou falar disso depois). Como ela já tem configurados meus fatores de sensibilidade (utilizados para bolus de correção, se necessário) e minhas razões insulina:carboidratos (utilizados para bolus de refeição, para dar conta da quantidade de carboidratos que vou comer), ela me sugere a dose de insulina a ser aplicada e eu confirmo (ou ajusto manualmente, se precisar) e pronto! Com simples apertar de botões, após confirmar, a insulina já começa a ser infundida no meu corpo. Simples assim!

Eu uso a Minimed Paradigm Veo da Medtronic. Essa bomba possui sensor próprio para monitorização de glicemia. Quando utilizado esse sensor, que faz a leitura da glicose através do líquido intersticial, ele possui conexão à bomba, através de um transmissor, chamado MiniLink, e informa para a bomba o valor da glicemia. Quando constatada uma hipoglicemia, ele ordena que a bomba pare de infundir insulina. Isso é muito útil para quem tem hipoglicemia assintomática, para quem tem hipoglicemia noturna, para crianças. No meu caso, eu não sinto necessidade de usar o sensor da bomba. E tenho vários motivos para isso. Eu utilizo o sensor da Abbott para monitorização contínua de glicemia, o FreeStyle Libre, que também faz a leitura da glicose através do líquido intersticial, e sou apaixonada por ele. Já estou bem acostumada com o Libre. Eu não costumo ter histórico de hipoglicemias e o Libre torna a monitorização muito fácil, pois mostra a tendência da minha glicemia. Assim, se eu vejo que a tendência é de baixa, eu já consigo agir e tratar para nem deixar a hipo se instalar. O custo do Libre, apesar de não ser um produto barato, é mais acessível que o do sensor próprio da bomba. O sensor do Libre é trocado a cada 14 dias, enquanto o sensor da bomba precisa ser trocado a cada 6 dias. O sensor da bomba precisa ser calibrado, no mínimo, 3 vezes ao dia com testes capilares para ter precisão (quanto mais calibrado, melhor – se não estiver calibrado, pode acusar uma falsa hipo e suspender a infusão da glicemia, por exemplo). O sensor do Libre não precisa ser calibrado com testes capilares, embora, por precaução, eu sempre faça testes de capilares nos dois primeiros dias de uso (ou até ter certeza de que os resultados das leituras do sensor estão precisos). Por todos esses motivos, uso a bomba sem o sensor próprio, uso a bomba com o sensor do Libre.

O que eu mais queria da bomba era a praticidade e a comodidade na aplicação da insulina. Era trocar de 5 a 6 injeções por dia por uma agulha a cada 3 dias. E esse objetivo eu atingi! Portanto, não sinto falta de usar a bomba com o sensor próprio.

Um pequeno parênteses antes de seguirmos (se é que você aguentou ler esse textão até aqui hehehe). A nova bomba da Medtronic, a 640G, possui um sensor próprio similar ao da VEO (na verdade, o sensor é exatamente o mesmo da VEO e a diferença reside apenas no transmissor que permite a conexão à bomba) e faz a suspensão da infusão da insulina na tendência a hipoglicemia (nem espera a hipo se instalar) e, após a glicemia ter voltado a um patamar seguro, reativa a infusão da insulina (ao contrário da VEO, onde a reativação da bomba precisa ser feita manualmente). Ou seja, estamos próximos do pâncreas artificial (nos Estados Unidos, já existe a bomba híbrida que faz tudo o que a 640G faz e também ajusta a dose de insulina basal automaticamente de acordo com as leituras de glicemia feitas pelo sensor).

Certo, vamos continuar falando da VEO. A cada 3 dias, é recomendado trocar o reservatório de insulina e o conjunto infusor. O que fica na pele é uma cânula flexível de silicone cirúrgico. A agulha funciona apenas como um guia para que a cânula penetre na pele. Da mesma forma que ocorre com a agulha de aplicação do sensor do Libre. Você coloca a cânula  no aplicador que é uma espécie de carimbo. Quando você posiciona no local escolhido e aperta os dois botões do aplicador juntos, ele dispara a cânula, a agulha penetra a pele e deixa a cânula aplicada no seu corpo. Então, você retira o aplicador, retira a agulha e a descarta apropriadamente (na embalagem de descarte de objetos perfuro-cortantes ou com resíduos químicos e biológicos – você pode pegar essas embalagens nos postos de saúde ou comprar em farmácias e lojas especializadas em material hospitalar e ortopedias). Pronto! Uma nova “agulhada” na sua pele só daqui a 3 dias.

Não tenho nenhum problema em andar com a bomba pendurada em mim. Na maior parte do tempo, até esqueço dela. É basicamente como estar com o sensor do Libre, a única diferença é que da cânula sai o catéter que fica ligado na bomba, algo como estar de fones de ouvido. Para mim, é super tranquilo. Acomodo na roupa, no bolso da calça, acomodo no sutiã (tipo top) para dormir. Muito tranquilo mesmo. Só desconecto a bomba para tomar banho e namorar. hahahaha O recomendado é não ficar mais de 2 horas com a bomba desconectada (porque você está sem receber insulina enquanto está sem a bomba). Mas não há nada que eu faça que requeira ficar sem a bomba mais de 2 horas. Geralmente fico entre 40 a 60 minutos sem a bomba. Eu faço inclusive academia com a bomba, mas isso varia de pessoa para pessoa.

Bem, acho que consegui falar o básico sobre a bomba de insulina. Espero ter ajudado a esclarecer algumas dúvidas de quem se interessa pela terapia com a bomba de insulina.

Deixo aqui fotos da rotina de troca de cânula. E aproveito para dizer que a insulina que usamos na bomba é a de frasco.

O antes da troca:

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O depois da troca:

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O que fica dentro de você é assim:

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Quanto aos locais de aplicação da cânula, são os mesmos indicados para fazer as injeções: abdômen, nádegas, braços e coxas. Lembrando que a absorção da insulina nas coxas é mais lenta. E, evidentemente, também é recomendado fazer rodízio nos locais de aplicação. Eu gosto de instalar a cânula no abdômen (aliás, por enquanto, não testei outro local) e faço rodízio no abdômen, da mesma forma como fazia com as canetas (divido o abdômen em áreas e, dentro de cada área, faço o rodízio, respeitando uma distância mínima entre os pontos de instalação).

PS:

1 – Não citei insulina Regular porque não é ultra-rápida e não é possível fazer contagem de carboidratos com ela.

2 – Não citei o uso de insulina ultra-rápida com tabela de correção (quando o médico prescreve aplicar X u  de insulina de acordo com o resultado da glicemia) porque trata-se de uma técnica ultrapassada. A melhor técnica para obter um bom controle do diabetes é a contagem de carboidratos.

3 – Muitos médicos não recomendam o uso da Apidra na bomba de insulina por se tratar de uma insulina menos estável.

4 – O meu objetivo é sempre dar um relato do ponto de vista do paciente, diabética tipo 1 que sou, levar informação e ajudar outros diabéticos e familiares de diabéticos. Porém, sou leiga. Portanto, sempre converse com os profissionais de saúde que te acompanham: médico endocrinologista especialista em diabetes, nutricionista especialista em diabetes, enfermeira especialista em diabetes, educador em diabetes, educador físico especialista em diabetes.

5 – Ficou com alguma dúvida? Me escreva e eu ficarei feliz em ajudar.

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