Na cabeceira: “A Resistência”, de Julián Fuks

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Terminei de ler “A Resistência”, de Julián Fuks, que foi considerado pela crítica especializada o melhor livro de 2016. Eu não costumo me guiar por críticas, muito menos as especializadas, pois gosto é algo muito íntimo, pessoal e, sobretudo, subjetivo. Acho que o que nos toca também está muito relacionado ao que já vivemos e ao que vivemos no momento. Porém, o livro me despertou atenção, li brevemente a sinopse e achei que poderia ser interessante e que eu poderia gostar. Como faço sempre, coloquei-o na minha lista de desejos da Amazon (sim, desde que migrei para o e-reader não consigo mais ler livros impressos, mas esse é outro assunto) e fiquei cuidando promoções para comprá-lo, coisa que fiz quando apareceu a oportunidade. Eu recém tinha terminado de ler “A ausência que seremos”, de Héctor Abad, livro maravilhoso que figura entre os melhores que já li. Como, a princípio, ambos os livros tratavam de temas parecidos: família, memórias, viés autobiográfico, ditadura – resolvi emendar uma leitura na outra, para seguir no embalo.
O que eu posso dizer sobre “A Resistência”? Primeiramente, é uma leitura difícil. Especialmente a primeira metade do livre. A leitura me cansou, até me revoltou de certa forma e, por vezes, abandonei, dei um tempo e depois retomei. Apesar desse desgaste que me causou, é inegável que o livro é muito bem escrito quanto à técnica, algo difícil de ver atualmente em meio a tantos escritores que mais parecem uma linha de produção, lançando um livro a cada mês. Aliás, algo que me escapa totalmente, já que considero que a inspiração criativa não se encaixa a agenda e possui vontade própria (mas esse também é outro assunto). A impressão de que fiquei sobre essa primeira parte do livro foi de um “escrevo ou não escrevo, conto ou não conto”, como se a estória e seu escritor estivessem totalmente indecisos, indefinidos, sem saber seu rumo. Ao mesmo tempo em que isso me cansou, é inegável um tom de diálogo confessional com o leitor, o que, no fundo, é algo bastante interessante. É como se a estória fosse se construindo, se desvelando diante dos olhos do leitor. A partir do capítulo 38, o livro, enfim, ganhou o ritmo que eu esperava. Foi nesse ponto que, para mim, a estória ganhou forma. Porém, a sensação incômoda não me abandonou durante toda a leitura.
Tentar definir a estória contada, tentar rotular é impossível, somente lendo. E, mesmo lendo, eu diria que a leitura precisa ser digerida e elaborada após o término, pois, assim, é possível dar novo significado. Infelizmente, nem todos os leitores tem por hábito digerir e elaborar a leitura após findá-la. Mas alguns livros requerem que isso seja feito. Me parece ser, pelo menos para mim, o caso de “A Resistência”. O incômodo que senti ao longo de todas as páginas lidas só foi suavizado após esse processo de digestão e de elaboração do que foi lido.
Ao longo de todas as páginas, há um jogo dúbio e o leitor nunca tem certeza do que é real (autobiográfico, digamos) e do que é ficcional. Aquela grande verdade literária de que nem sempre o quê o escritor quis dizer é o quê o leitor vai entender se torna ainda maior. Mas é justamente essa uma das belezas de qualquer tipo de arte, não é mesmo? Nos tirar da zona de conforto, nos provocar, nos indagar, nos levar à reflexão, nos tocar, nos mover. Nesse sentido, “A Resistência” cumpriu de forma plenamente satisfatória seu papel.
Não é um livro sobre memórias da ditadura, apesar de ser de certa forma. Não é um livro de viés autobiográfico, apesar de ser de certa forma. Não é um livro sobre adoção, apesar de ser de certa forma. É, indubitavelmente, uma leitura difícil, mas um livro muito bem escrito, notavelmente bem escrito.
Talvez o que mais tenha me incomodado é a forma como eu percebi ter sido tratada a adoção. Minha percepção foi de um tratamento duro, por vezes feio e, ao mesmo tempo, de uma sensibilidade e de uma beleza sutis. Porém, não sei se esse era o objetivo de Fuks, não sei se eu compreendi o que ele verdadeiramente quis dizer. De toda forma, é bonito ter coragem de mostrar as sombras que habitam cada ser humano, apesar de termos tendência a querer negá-las, fazendo pose de sermos seres feitos apenas de luz.
Há passagens lindas no livro e o meu e-book ficou cheio de destaques (eis um dos motivos pelos quais eu amo e-books, pois eu não gostava de riscar e rabiscar livros impressos, meu TOC não permitia que eu o fizesse). Passagens cheias de significado. Passagens das quais vou recordar por muito tempo. Passagens que mostram o conteúdo humano comum a qualquer mortal: o amor e a culpa que envolvem todas as famílias, a necessidade de ser compreendido e de pertencer, a dualidade entre luz e sombra, entre dor e alergia, entre dor e amor. Tudo tão demasiadamente humano que chega a ser invasivo e por isso mesmo incômodo e perturbador.
Para não me alongar mais, afirmo que o livro é muito bem escrito, mesclando realidade e ficção sem permitir que o leitor possa distinguir uma coisa da outra, e que, após digerir e elaborar a leitura, ela ganha novo significado. Enquanto eu estava lendo e me sentindo incomodada, eu brincava que resistência era persistir na leitura. Após terminar e refletir sobre o livro, pude perceber o quanto se tratava de algo valoroso. De tudo, a mensagem que fica é a de que “ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência. (…) Mais um modo de se opor à brutalidade do mundo”. Ou simplesmente a de que viver é algo perturbador, mas igualmente belo. Viver é resistir.
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